Vereador de Lauro de Freitas em segundo mandato e recém-filiado ao PL, o Pastor da Assembleia de Deus foi escolhido pelo segmento evangélico para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2026, após a desistência do deputado federal Alex Santana (Republicanos) de concorrer à reeleição. Tendo como principal dobradinha no Estado o também pastor e deputado estadual Samuel Júnior (PL), Abraão Reis tem perspectiva de obter 100 mil votos nas urnas. Em entrevista ao site Política em Off, ele fala sobre sua trajetória política, atuação no Legislativo municipal, base eleitoral, posicionamentos ideológicos e o papel da igreja na sociedade. Confira:
Pastor, como começou sua trajetória na política e como foi essa virada de chave para disputar a Câmara dos Deputados em 2026?
Minha história com a política vem de muito cedo. Sempre gostei do processo político e fui criado dentro desse ambiente. Meu pai já foi candidato a deputado e sempre esteve muito envolvido com o segmento cristão e com a política. Ele era engenheiro civil, mas também tinha um forte interesse por história e pela vida pública, então acabou se envolvendo cada vez mais nesse processo.
Eu nasci nesse contexto em que o sentimento político já fazia parte da rotina da família. Mais tarde, me filiei ao PSC e desde então passei a atuar de forma mais direta. Ainda jovem, com mais de 18 anos, já estava envolvido com esse ambiente político e institucional.
Também atuei profissionalmente em Lauro de Freitas na área da saúde, na época de endemias, mas nunca me afastei da política. Ao longo do tempo, exerci diferentes funções públicas, como assessor financeiro, assessor jurídico, assessor parlamentar, assessor especial, subsecretário e secretário municipal.
Na minha trajetória eleitoral, fui candidato em 2016 e obtive 914 votos, sendo o melhor suplente da cidade naquele pleito. Em 2020, alcancei 1.184 votos e, em 2024, aproximadamente 1.614 votos, sempre ampliando minha base.
Dentro da Câmara Municipal, também tive atuação na Mesa Diretora: fui terceiro secretário no primeiro mandato e primeiro secretário no segundo. Agora, recebi o convite do segmento evangélico para disputar uma vaga de deputado federal, especialmente após a decisão do deputado Alex Santana de não buscar a reeleição, o que abriu esse espaço dentro do nosso grupo político e religioso.
O senhor já tem uma base eleitoral definida para a disputa federal?
A base eleitoral não é apenas regional, ela é mais organizada por cidades e por relações políticas já construídas ao longo do tempo. Existem localidades onde naturalmente temos um potencial maior de votação, a exemplo de Lauro de Freitas, que é a minha cidade.
Há também cidades onde recebo o que eu considero uma espécie de “herança política” do deputado Alex Santana, que já construiu um trabalho importante junto à igreja e a determinados grupos políticos, como Camacan. Isso nos ajuda a dar continuidade a esse trabalho em alguns territórios.
Em algumas cidades específicas e outras regiões onde essa influência já existe, acredito que teremos uma performance mais consolidada.
Mas, acima de tudo, o nosso principal eixo é o evangelho. A igreja tem um papel central nessa construção de base. Além disso, existe também um voto ideológico dentro do PL, que não está necessariamente ligado ao segmento evangélico, mas que se identifica com pautas conservadoras, o que também amplia nossa possibilidade de diálogo eleitoral.
O senhor enfrentou alguma resistência dentro do PL ou do próprio campo político evangélico?
De forma pessoal, não tive enfrentamento direto ou resistência individualizada dentro do partido. O que houve foram manifestações pontuais, principalmente em redes sociais, de algumas pessoas questionando a nossa identidade partidária.
Algumas críticas diziam que nós não seríamos, na essência, do PL. Esse tipo de manifestação partiu de ao menos uma pessoa de forma mais explícita, mas entendo isso dentro do contexto político.
Existe, de fato, uma preocupação mais ampla dentro do partido em todo o país, especialmente em relação ao crescimento de candidaturas com base mais ideológica ou de segmentos específicos, o que gera debates internos naturais. Eu compreendo essas discussões, mas vejo como parte do processo democrático e da construção partidária.
O senhor defende maior representação dos evangélicos no Congresso. Por quê?
Primeiro é importante deixar claro que os evangélicos também são cidadãos como qualquer outro grupo da sociedade. Não estão fora desse conceito. E como cidadãos, possuem direitos e deveres.
Entre esses direitos está o de votar e também o de ser votado. Portanto, não apenas podem participar da política, como também devem ter espaço para se apresentar como representantes de suas convicções e interesses.
O segmento evangélico representa uma fatia significativa da sociedade brasileira, com valores, princípios e interesses próprios, especialmente no campo moral e ético, que são pautados nas Escrituras [Bíblia].
Isso não significa impor uma crença ou obrigar alguém a seguir nossa fé. Ninguém é obrigado a acreditar no que defendemos. Mas também não somos impedidos de defender aquilo em que acreditamos dentro do espaço público e democrático.
Além disso, o segmento evangélico também envolve instituições organizadas, muitas com personalidade jurídica, que atuam em áreas sociais, educacionais e comunitárias. Essas instituições possuem demandas legítimas junto ao poder público, como licenciamento, alvarás, questões ambientais e administrativas.
Portanto, ter representação política também significa dar voz a esse conjunto de interesses sociais e institucionais que fazem parte da sociedade como um todo.
O senhor é alinhado ao senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência pelo PL? O voto evangélico deve acompanhá-lo?
O voto é sempre livre. Cada cidadão tem autonomia para escolher seus representantes.
O senador Flávio Bolsonaro representa uma parte do campo político que dialoga com valores que também são importantes para o segmento evangélico, especialmente no que diz respeito à família, que entendemos como base da sociedade.
Também há convergência em pautas como a defesa da vida, a posição contrária ao aborto e uma visão mais rígida sobre segurança pública e responsabilização penal.
Mas isso não significa imposição de voto. O eleitor evangélico, assim como qualquer outro, é livre para escolher seus candidatos com base em sua consciência, análise política e convicções pessoais.
Quais serão suas principais bandeiras em Brasília?
As minhas pautas são pautadas por princípios conservadores, tanto no campo moral quanto no campo administrativo.
Defendo a família como base da sociedade e sou contrário ao aborto. Quando ele propõe reduzir a maioridade penal entendemos que tem que tratar com rigor aqueles que merecem rigor.
Na área econômica, defendo um Estado mais enxuto, com menos estrutura, menos funcionários do que temos agora e menos burocracia. Entendo que o poder público precisa ser mais eficiente e menos inchado.
Em alguns setores, também defendo processos de privatização, quando isso for possível e benéfico. Não defendo privatização generalizada, mas sim em casos específicos.
Na segurança pública, acredito que o Estado deve agir com mais firmeza contra quem insiste na prática de crimes, especialmente em casos de reincidência e violência.
Como o senhor avalia o posicionamento de ACM Neto dentro desse cenário político?
Mais uma vez, reforço que o voto é livre e cada pessoa se posiciona conforme sua consciência política.
No meu entendimento, ACM Neto representa uma possibilidade de mudança dentro do cenário político da Bahia. E isso é importante, porque a população busca alternativas de gestão.
Alguns entendem que ele representa uma alternativa administrativa mais eficiente, outros podem discordar. Dentro do segmento evangélico, haverá diferentes posicionamentos, o que é natural.
A igreja não impõe voto. Ela orienta com base em valores, mas a decisão final é sempre individual.
Olha, volto a dizer que o voto é livre, cada um se posiciona como achar que deve. A igreja tem o dever de apresentar seus valores pautados nas Escrituras. Então, há aqueles que entendem que Neto não é a melhor opção.
No meu caso, já me posicionei em favor de Neto, porque nós temos um interesse principal de mudar o que está posto. Então, o Neto seria um voto útil. Embora eu também compreenda que ele tem importância no processo político atual, porque vai tentar readequar, readaptar aquilo que já está fora do trilho.
Quando penso hoje, volto a dizer aqui: em relação à violência, o PT já mostrou que não tem interesse em resolver. E o Neto me apresenta uma oportunidade de colocar “pro trilho”, apresenta uma qualidade de gestão que eu acho que é necessária para a Bahia no tempo em que nós estamos vivendo.
Então, eu imagino que o segmento evangélico, em grande parte, vai caminhar com Neto em razão da mudança do que está proposto, e com Flávio Bolsonaro também. Alguns por entenderem que Neto é indispensável, dado o seu perfil de gestor; outros por quererem tirar o PT.
Agora, vai ter esse movimento de migrar para outro lado, não tem para onde fugir. A igreja não impõe o voto; a igreja tem a sua opinião, e a liderança se manifesta como cidadão. E isso também faz parte da contribuição da Assembleia de Deus para a sociedade.
Para finalizar, qual é o papel da igreja evangélica na sociedade brasileira?
A igreja evangélica tem um papel social extremamente relevante, principalmente em áreas onde o Estado não consegue chegar de forma efetiva.
Ela atua diretamente no resgate de pessoas em situação de vulnerabilidade, como dependentes químicos, pessoas em risco social e indivíduos que muitas vezes estavam completamente desassistidos.
Há inúmeros testemunhos de transformação de vida dentro desse trabalho social da igreja, envolvendo famílias inteiras, jovens e comunidades.
Além disso, a igreja também contribui com a formação de valores sociais importantes, como respeito entre pais e filhos, fidelidade no casamento, responsabilidade familiar e ética nas relações.
Esses princípios não são apenas religiosos, mas também sociais, porque ajudam a estruturar a convivência e o equilíbrio da sociedade.
Na prática, a igreja cumpre um papel que vai além da fé: ela atua como agente de transformação social. E, em muitos casos, onde o Estado não chega, é a igreja que chega primeiro.
Foto: Política em Off








