Carnaval democrático? Então que seja para todos — inclusive para o circuito Batatinha

Carnaval democrático? Então que seja para todos — inclusive para o circuito Batatinha

O Carnaval de Salvador terminou, mas algumas perguntas precisam permanecer.

Enquanto os grandes circuitos, entre eles o Barra-Ondina (Dodô) e o Campo Grande (Osmar), recebem iluminação potente, forte aparato de segurança e ampla cobertura da mídia, o circuito Batatinha (Pelourinho) — onde desfilam blocos afro, afoxés e acontecem as manifestações de terreiros e expressões culturais ancestrais — segue com estrutura insuficiente, pouca visibilidade e iluminação precária.

Aqui não se trata de intolerância religiosa. O Carnaval é, sim, um espaço democrático assegurado pela Constituição, que garante liberdade de expressão e manifestação cultural. Se há grupos evangélicos que desejam participar, como foi visto no Pelourinho no Carnaval deste ano, isso faz parte do pluralismo da cidade.

A questão não é a presença. A questão é a prioridade.

Por que há investimento robusto em determinadas manifestações enquanto outras — especialmente as de matriz afro-brasileira, que são a base histórica do Carnaval da Bahia — seguem com estrutura inferior?

Por que o circuito Batatinha permanece com iluminação frágil e segurança reduzida, enquanto outros espaços recebem palcos de grande porte?

Essa reflexão não é contra os evangélicos. É sobre coerência cultural e justiça simbólica.

O Carnaval nasce da rua, da mistura, da herança africana, do samba, do ijexá, do afoxé. Ele também é, hoje, um espaço plural onde diferentes expressões convivem. Mas pluralidade não pode significar substituição silenciosa ou hierarquização de culturas.

Se o poder público investe em um palco religioso, precisa também investir com igual força nos blocos afro, nos afoxés, nas manifestações de terreiros, nas expressões que historicamente sustentaram essa festa.

Democracia cultural não é apenas permitir que todos participem. É garantir equidade de estrutura, visibilidade e respeito.

O circuito Batatinha precisa de luz, precisa de segurança, de reconhecimento.

O Carnaval é democrático, mas a democracia precisa ser equilibrada.

Sobre o autor: 

Pré-candidato a deputado federal em 2026, Luiz Carlos Suíca é graduado em História pela Universidade Católica da Bahia (Ucsal). Foi vereador de Salvador por três mandatos pelo Partido dos Trabalhadores (PT), no qual está filiado há 33 anos. Ativista da causa social e racial, também é diretor do Sindlimp (Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Limpeza Urbana e Terceirizada da Bahia). Em seu perfil no Instagram (@suica13), onde acumula 508 mil seguidores, Suíca faz uma abordagem sobre pautas relacionadas à dinâmica da sociedade.

 

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